viernes, 28 de noviembre de 2014

José Carvalho. Soria 2004. 400 m.b.

400 Metros Barreiras – Um modelo de corrida

"Uma quebra invulgar na parte final da corrida, pode em muitos casos determinar atenções especiais na primeira parte da corrida"



Introdução


Duas situações de desenvolvimento da corrida de 400 metros barreiras; o número de passadas entre barreiras e os tempos de passagem nas fases intermédias da corrida, são referências fundamentais para treinadores e atletas quando se pretende avaliar a prestação competitiva de um atleta nesta especialidade. Estas duas preocupações foram durante muitos anos uma constante da minha carreira de atleta e mais tarde no exercício da minha função de treinador, uma das minhas principais referências de trabalho na selecção e preparação de atletas para esta especialidade.

Hoje, treinadores e atletas concentram grande parte da sua atenção nestes dois importantes parâmetros do doseamento de esforço na corrida, recolhendo o máximo de informações nas parcelas em que dividem a prova, procurando atingir alvos (tempos), parcialmente bem determinados nos diferentes momentos (distância) da corrida. Esta preocupação assume papel preponderante na corrida de 400 metros barreiras, onde a “estruturação do ritmo das passadas entre barreiras” e a transposição dos obstáculos em situações de fadiga mal doseada, prejudicam significativamente o seu equilíbrio.
           
            Actualmente, adaptadas às características físicas dos atletas, utilizam-se vários tipos de estruturas rítmicas com um mesmo objectivo – encontrar uma equilibrada distribuição do esforço na corrida.
           
            O estudo do fraccionamento da distância (referencial) é variável de treinador para treinador. Baseado no estudo de bibliografia específica sobre o assunto e em várias observações directas em competições de atletas de nível mundial, foi por mim, criado em 1978, um modelo de optimização da corrida de 400 metros barreiras.
           
            A conclusão destas observações apontava na altura para um equilíbrio de tempos nas parcelas; 1ª/4ª, 4ª/7ª e 7ª/10ª barreira e ainda para uma desaceleração constante nestas três fracções da corrida (105 metros), na ordem dos 0.60 a 1.10 segundos. Este modelo, citado como “tabela portuguesa”, é, ainda hoje, utilizado como parâmetro na observação da corrida e serve de referência aos treinadores portugueses no seu trabalho de treino ritmos na corrida de barreiras.


Caracterização da prova

Aspectos regulamentares da corrida 400 metros barreiras:

  Femininos                                                                                     Masculinos
                    10                      Número de obstáculos                                     10
              0,76 metros                          Altura dos obstáculos                    0,914 metros
               35 metros            Distância entre obstáculos                                 35 metros
  45 metros      Distância da linha de partida ao primeiro obstáculo        45 metros
  40 metros      Distância do último obstáculo à linha de chegada          40 metros

As corridas de barreiras integram-se na família das provas de resistência de curta duração, diferenciando-se das corridas planas pela transposição de obstáculos colocados a intervalos regulares (35 metros entre si). Nestas corridas, os atletas procuram a maior velocidade de deslocamento, reduzindo ao mínimo a perda de tempo durante a transposição dos obstáculos, tentando assim, conservar o seu ritmo de corrida.

Nas corridas de 400 metros com barreiras, são variadas as estruturas rítmicas dos atletas, dependendo estas, na maior parte das vezes das características morfológicas dos atletas, onde tendencialmente, um atleta mais alto com uma amplitude de passo maior, deverá realizar, um menor número de passadas no espaço entre barreiras (35 metros), numa perspectiva de economia de esforço.

Outra das razões de variação da estrutura rítmica da corrida de 400 barreiras é resultante do aparecimento de fadiga ao longo da corrida. Os atletas utilizam entre as barreiras um adequado número de passadas que em função do número de mudanças, habitualmente previstas durante a corrida pode ser aumentado na fase terminal da prova.

Exemplos:


Masc.    13 passos – 14 passos       ou          14 passos – 15 passos
Uma mudança:
Fem.      15 passos – 16 passos       ou          16 passos - 17 passos



Masc.    13 passos – 14 passos – 15 passos
Duas mudanças:
Fem.      15 passos – 16 passos – 17 passos


As amplitudes médias do passo nesta corrida, estão directamente relacionadas com o número de passos efectuados nos intervalos das barreiras e de acordo com o seu número, são as seguintes:

(13p –2.46 mts)  (14p  – 2.29 mts)  (15p – 2.13 mts)  (16p – 2,00 mts)

As maiores velocidades de deslocamento acontecem na parte inicial da prova nos intervalos da 1ª à 4ª barreira e coincidem com a maior amplitude de passada dos atletas, a saber:

Homens ± 9,50 m/s                           Mulheres ± 8,50 m/s  

Este importante factor selectivo da velocidade de deslocamento integra também o elemento técnico da transposição, pois estes registos de tempos, são tomados no contacto do pé com o solo após a transposição das barreiras. Assim, é possível verificar por parcela, onde são alcançados os melhores tempos e consequentemente determinar as respectivas intensidades dos vários tipos manifestação de velocidade em que está dividida a prova.

Numa operação simples, de divisão do espaço percorrido (35 mts) pelo seu tempo de execução são calculadas as respectivas velocidades e de acordo com estes valores, são construídos gráficos do desenvolvimento da corrida.




Ao contrário dos corredores de barreiras curtas que mantêm a sua estrutura rítmica desde a sua formação até terminarem a sua carreira, os corredores de barreiras longas, modificam-na com o evoluir da sua condição física, o que os leva a ter outras preocupações técnicas na sua fase de formação, como a aprendizagem de utilização das duas pernas no ataque à barreira.

Independentemente desta preocupação, são poucos os atletas de barreiras longas, que utilizam, indiferenciadamente uma e outra perna de ataque na transposição da barreira, sem alterações de continuidade na sua corrida. Nestas circunstâncias, o treinador procurará as melhores soluções que atenuem esta condicionante (ex: perna contrária na recta ou em situações de ausência de fadiga).
           
No mundo do desporto, são várias as determinantes que condicionam os níveis de desempenho dos atletas, e, de entre estas; as estruturas morfológicas, orgânicas, perceptivo-motoras, de carácter psicológico e de interacção social, são na maior parte dos casos, decisivas na qualificação dos patamares de realização desportiva.
A simples transposição de dez obstáculos de dimensões médias durante a corrida, é logo à partida, um factor de selecção morfológica, aos quais se associam naturalmente, outros não menos importantes de carácter perceptivo-motor, traduzidos na capacidade de realizar respostas motoras rápidas e orientadas.
           
A integração dos  400 metros barreiras, no limite superior das disciplinas de resistência de curta duração, tornam esta prova, numa das especialidades mais exigentes da capacidade volitiva dos atletas, a predisposição dos atletas para “aceitar” as altas intensidades de esforço e os seus volumes de trabalho é determinante no sucesso da disciplina.
           
Assim, um atleta de estatura média-superior, destemido (a barreira não pode ser factor inibitório) e com um bom nível de velocidade, tem todas as condições para se tornar um bom corredor de 400 metros barreiras.

Modelo de optimização da corrida

No atletismo, a corrida de 400 metros barreiras, enquadra-se nas disciplinas de resistência específica de curta duração, com:

Duração – 40” a 1’ / Intensidade – Máxima  /  FC : 185 – 195  /  VO2 máx. 100% 
Fontes decisivas – Anaeróbio 75% / Aeróbio 25%
Factores decisivos–Potência láctica / Tolerância láctica / Capacidade aeróbia / nível de velocidade.

A falta de avaliação destes parâmetros fisiológicos no terreno, por ausência de uma qualificada e eficaz equipa na área do controlo e avaliação do treino, levou-me, partindo de uma observação sistemática da prova, à criação de um modelo de optimização da corrida e a partir daí determinar zonas de intensidade de trabalho.

Posteriormente, considerando um dos factores decisivos da prova – o seu nível de velocidade (RVD) – e a forma como esta se manifesta no decorrer da corrida, foi possível estabelecer zonas de intensidade específicas para esta especialidade.

Este referencial de velocidade de deslocamento (RVD), estimado sobre uma distância de 15 metros corrida no máximo da sua velocidade, após de 30 metros de corrida lançada, permite-me seleccionar com maior exactidão estímulos de intensidade de trabalho.

Esta distância de corrida (15 metros), continua, ainda hoje, a ser utilizada pelos atletas para avaliar os seus progressos sobre velocidade máxima e reformular o RVD, embora na maioria dos casos, por acção do treino, a sua velocidade máxima se manifeste um pouco mais tarde.

Partindo deste referencial (RVD) individualizado e da sua relação com o desempenho nas provas de resistência de curta duração em distâncias planas e com barreiras (400), foi possível estruturar zonas de intensidade de trabalho láctico.

Objectivamente, este modelo de optimização da prova de 400 metros barreiras, projecta teoricamente no desenvolvimento da corrida, uma desaceleração constante e progressiva em duas parcelas de 105 metros (4ª/7ª e 7ª/10ª) e propõe percentualmente (em função do RVD), uma perda regular nestas parcelas, determinando desta forma, as zonas de intensidade de trabalho láctico; de velocidade (cor amarela) e de resistência (cor azul).



Estratégia de preparação.

            Determinadas as capacidades condicionais e as fontes energéticas mais predominantes da disciplina, o estádio de desenvolvimento do atleta, a predição dos seus resultados (tanto quanto possível a longo prazo) e o tempo para atingir os objectivos preconizados, o treinador deverá então proceder, no respeito pelos princípios da teoria do treino desportivo, à evolução individualizada do crescimento da carga nas diferentes etapas de preparação dos atletas.

No que se refere à organização/programação do treino da resistência, torna-se imperioso, detalhar  de um modo mais preciso a área de solicitação metabólica sobre a qual pretendemos incidir o nosso trabalho, por forma, a que a carga de treino tenha um efeito mais específico e adequado. A determinação precisa de uma área de intensidade, permite a organização sistemática do treino da resistência, e tornar assim, cada unidade de treino com objectivos diferenciados ao nível da sua adaptação fisiológica.

Para o treino da resistência surgem, claramente, 4 áreas funcionais de características bem diferenciadas e correspondendo a diferentes adaptações funcionais; limiar anaeróbio, potência aeróbia, tolerância láctica e potência láctica.

Como sabemos, o desenvolvimento destas áreas requer intensidades específicas, pelo que no treino da resistência será mais conveniente definir com clareza, zonas ou níveis de intensidade com um significado objectivo e explícito. Segundo os critérios estudados e referidos por Francisco Alves, texto revisto Nov. 2000 em estudo do factor físico desportivo sob proposta de Harre (1981) considera quatro zonas básicas para o treino de resistência:

         Zona           Designação                                   Caracterização Metabólica

      LA             Limiar Anaeróbio                  [La] 2-4,5 mmol.l-1 ; 50-90% VO2max
      PA             Potência Aeróbia                   [La] 4,5-8 mmol.l-1 ; >90% VO2max
      TL              Tolerância Láctica                 [La] > 6 mmol.l-1 ; 100% VO2max
      PL              Potência Láctica                    [La] > 6 mmol.l-1

Em programas de treino, onde a resistência é objecto de preparação específica e constitui uma condicionante fundamental para o desempenho competitivo, é habitual aparecer uma distribuição mais detalhada dos níveis de intensidade, proveniente do desdobramento dos anteriores. Por isso, importa caracterizar a modalidade ou disciplina quanto à sua solicitação metabólica e definir as zonas de intensidade a trabalhar.

Dadas as grandes concentrações láctica que provoca, o programa de treino da resistência deste tipo de atletas, requer também sessões destinadas à regeneração, pelo que podemos considerar uma zona de intensidade suave, cujo o objectivo é tão somente a remoção do ácido láctico.

Podemos então considerar, para o treino de um atleta especialista de 400 metros barreiras e de acordo com o modelo de optimização da corrida (quadro 2), as seguintes zonas de intensidade:

Aeróbia 1                                         < 60 %            RVD
Aeróbia 2                                         60 % - 70%     RVD
Tolerância láctica                             70 % - 82 %    RVD
Potência Láctica                              80 % - 90 %    RVD

A determinação destas zonas de intensidade de treino, permite aceder a um planeamento de treino com uma base mais objectiva e quantificável, segundo sequências de significado claro e justificável. Deste modo, a compensação da fadiga será efectiva, e, ao mesmo tempo, torna-se possível impor uma estimulação de treino verdadeiramente significativa.

Em termos práticos isto significa que o treinador, ao planear um ciclo de preparação, define a quantidade de trabalho que pretende realizar em cada zona de intensidade, concebendo depois, para cada sessão de treino uma determinada percentagem do volume total, de acordo com a fase da época, as necessidades próprias de cada atleta e a proximidade da competição.

A criação no treino, de situações de aproximação à competição, é um importante meio de avaliação, aproveitado pelo treinador para motivar os seus atletas. Esta estratégia, frequentemente utilizada em sessões de treino, resulta da comparação de uma cuidada e permanente observação dos registos efectuados em ambas as situações (treino e competição). Com muita experiência, e, em situações de treino especiais, é possível prever, com uma pequena margem de erro, o resultado do atleta na sua competição mais próxima.

A observação da corrida
           
            Para que a observação se processe com rigor é necessário saber para onde olhar, sendo para tal, necessário ter um conhecimento profundo do movimento/acções, correndo-se, se tal não acontecer, o risco de se efectuarem instruções direccionadas aos sintomas e não propriamente às verdadeiras causas dos erros. Não basta avaliar a eficácia da acção, deverão também conhecer-se as suas causas, pois o produto final pode ter tido origens diversas.
           
            Repetidas situações de aflição vividas pelos atletas nas suas fases finais de corrida, são, em muitos casos resultado de uma falta de observação e/ou de uma má interpretação dos seus registos na primeira parte da corrida. A tentação para justificar as quebras de rendimento na fase final da corrida com falta de resistência, leva a maior parte dos atletas e treinadores a direccionarem o seu trabalho para esta capacidade condicionante, quando o problema reside, provavelmente, nas suas passagens muito rápidas em fases intermédias da corrida.
           
            Os registos cronométricos dos tempos de passagem dos atletas em parcelas previamente determinadas, permite-nos observar a forma como foi doseado o esforço durante a corrida. Neste registo deve também ser mencionado o número de passadas entre barreiras, pois esta informação complementar, ajuda-nos a interpretar a estrutura rítmica adoptada (a ligação corrida/transposição das barreiras deve ser minuciosamente preparada por forma a evitar ao máximo as travagens nas aproximações às barreiras).
           
A escolha da estrutura rítmica de um atleta, está associada a factores relacionados com a sua tipologia, domínio técnico da transposição da barreira e, por último, objecto principal das nossas observações, na dependência do melhor e mais equilibrado doseamento do esforço na corrida.
           
            Para além dos condicionalismos intrínsecos do atleta, também eles elementos condicionadores da forma como se desenrola a sua prestação desportiva, devem ser, ainda, considerados na observação da corrida, todos os seus aspectos contextuais, relacionados com; condições climatéricas (calor, frio, vento, chuva, etc), características do piso da pista (tipo de material), horário da prova (manhã, tarde, noite), o seu carácter estratégico, considerando o nível dos adversários e tipo de corrida (a controlar, arriscar, apuramento, final) e o momento da sua realização, dependendo este do estado de preparação do atleta. A adaptação à corrida é um importante elemento de referência a ter em conta quando se procede ao tratamento dos registos observados, neste caso, mais direccionados para tempos parciais nas várias fases da corrida.
           
            Um primeiro momento do processo de treino de um observador é “filmar com os olhos”. Este sentir, faz parte do dia a dia do treinador e desempenha um papel primordial no exercício das suas funções, estes dados da sua observação, são de vital importância para a  programação do seu trabalho, particularmente em períodos de preparação específica ou competitiva.
           
            Os seus conhecimentos e sensibilidade para o desempenho desta competência de observador, direccionada para a corrida do seu atleta, devem ser numa primeira fase, avaliados por comparação com o tempo oficial da prova ou com os registos de outros observadores. Após alguma experiência nesta função, é, já possível ao treinador, em comparação, apenas com os resultados oficiais, interpretar os seus próprios “erros sistemáticos” de avaliação, resultantes da sua forma particular de observação.
                       
            A utilização do mesmo instrumento de medida (um cronómetro), dotado de um número apreciável de memórias, manuseado da mesma forma pelo mesmo observador, garante por si, a validação destes registos.
           
            Impossibilitados regulamentarmente de ocupar as zonas de melhor visibilidade da prova no interior da pista, os treinadores/observadores procuram nas bancadas, o melhor local de observação que lhes permita visualizar o momento recepção na transposição das barreiras e a partir desse local registar todos os dados necessários ao preenchimento de uma ficha de observação, previamente elaborada para o efeito.
           
            Estes registos, provenientes da observação directa do treinador/observador, não podem ser reproduzidos, e, como tal, são de pouco interesse para a investigação científica. Para estudos de investigação, o meio tecnológico mais utilizada para fidelizar este tipo de informação é vídeo gravador (observação indirecta). No entanto, por necessidade de transmitir ao atleta, informação em tempo útil (de série para série, do aquecimento para a competição, da eliminatória para a final, etc.) e não ser muito cómodo, presenciar o treino ou uma corrida através do visor de uma máquina de filmar, o treinador, cria hábitos de registo por observação directa, de pouco interesse para a investigação científica, mas de grande aplicação no desenrolar do processo de preparação dos atletas, pois reflecte uma maior aproximação às suas situações de treino, local onde se operam todas as mudanças.

A margem de erro produzida por este tipo de observação, é mais reduzida quando estes registos apenas consideram o trajectos entre barreiras, pois as maiores diferenças de tempos dos treinadores/observadores em observação directa e os tempos oficiais acontecem nas parcelas partida/1ª barreira e 10ª barreira/meta, devido a:

1.      Os treinadores/observadores incidirem a sua observação sobre o atleta e nem sempre o juiz de partida se encontrar no seu campo visual.

2.      A grande dificuldade de visibilidade do fumo da pistola, por falta de fundo (contraste) em locais de muita claridade, o que acontece com frequência.
3.       A colocação dos treinadores/observadores fora do alinhamento das linhas de chegada, por razões de impossibilidade técnica (espaço ocupado por cronometristas e juízes de chegada).          

Registo e leitura da observação

            A ficha para observação da estrutura rítmica da corrida de 400 metros barreiras, regista, não só, os dados necessários à concretização do nosso estudo, como permite retirar outros elementos de informação que contribuem para fundamentar estudos direccionados para o mesmo assunto.

            Influenciados pela forma como os treinadores dos 400 metros planos dividiam esta distância para melhor acompanharem a evolução dos atletas (no passado em duas parcelas de 200 metros), os treinadores de 400 metros barreiras, consideraram de igual modo esta distância intermédia para análise do seu ritmo de corrida e tomavam ainda em consideração a diferença de tempo do mesmo atleta na sua corrida de barreiras e na corrida plana para uma avaliação da sua habilidade técnica (corrida/transposição). Era, por isso, muito frequente a participação dos atletas desta disciplina em provas planas da mesma distância.

            Assim, uma das referências, ainda hoje, muito utilizada pelos treinadores é o tempo de passagem dos atletas aos 200 metros, medida directamente na sua passagem por esta distância ou calculada indirectamente a partir do registo de tempos de barreira a barreira. Para fazer este cálculo, basta aplicar uma regra de três simples (se nos 35 metros da parcela 5ª/6ª barreira realiza o tempo x em 14 metros realiza y) e somar ao tempo de passagem à 5ª barreira (colocada a 185 metros da partida) o tempo encontrado para percorrer estes 14 metros. Esta distância de 14 metros resulta do contacto do pé com o solo após a transposição da barreira se efectuar a  ± 1 metro à sua frente.

            Uma segunda referência, muito pouco utilizada ainda entre os treinadores, mas que dá uma maior visibilidade ao equilíbrio da corrida e consequentemente doseamento do esforço, é-nos dada pela diferença de tempos entre o melhor e o pior registo de tempo em cada intervalo de barreiras. Uma menor diferença de tempos determina uma corrida mais equilibrada.

            A referência mais utilizada pelos treinadores portugueses é em minha opinião a que melhor traduz o que se passa na corrida. Este modelo de optimização da corrida, descrito anteriormente, considera na distribuição do esforço uma desaceleração constante e progressiva em duas fracções de 105 metros (4ª/7ª e 7ª/10ª) e propõe uma perda (p) regular nestas parcelas de 0.60 a 1.10 segundos que depois é somada ao tempo realizado no percurso da 1ª/4ª barreira.

            Partida/1ª bar              1ª/4ª bar         4ª/7ªbar          7ª/10ª bar       10ª/meta
                        y                           x                    x+p                 x+2p                 z   

            De acordo as opções de análise para a optimização da corrida, a adopção do registo barreira a barreira, por contemplar as três leituras anteriormente descritas é indiscutivelmente a melhor opção de observação. Para exemplificar esta opção, apresento o respectivo tratamento de alguns dados do atleta português Carlos Silva, recolhidos por observação directa, nas suas três corridas das Universíadas 2001 em Pequim (30/08 - o apuramento e meia-final e 31/08 - a final).

Man.
Partida
1ª p
2ª p
3ª p
4ª p
5ª p
6ª p
7ª p
8ª p
9ª p
Meta
Tempo
49”24
5.89
3.81
4.03
4.07
4.17
4.16
4.23
4.38
4.58
4.62
5.30
49”80
48”68
5.89
3.83
3.97
4.05
4.19
4.06
4.26
4.29
4.53
4.50
5.11
49”22
48”49
5.93
3.76
3.82
3.99
4.20
4.07
4.20
4.27
4.48
4.58
5.19
49”07


13
13
13
14
14
15
15
15
15



Nota: As diferenças de tempos (0.56-0.54-0.58) entre os tempos registados manualmente e os tempo oficiais, é resultante da utilização de uma técnica de observação pessoal, realizada sempre da mesma forma (a partir do movimento do atleta) e que é habitualmente muito próximo dos 0.60 segundos (erro sistemático) sobre o resultado oficial.
Análise dos registos contemplando as três leituras já referenciadas.



Tempo de passagem aos 200 m

Melhor / Pior

4ª/7ª - 7ª/10ª
Tempo

1º 200 m
2º 200 m
Diferença

Diferença

Diferenças

49”80

24.07
25.73
1.66

0.81

0.65 – 1.02
49”22

23.99
25.23
1.24

0.70

0.66 – 0.81
49”07

23.77
25.30
1.53

0.82

0.90 – 0.86

            De acordo com o modelo proposto de optimização da corrida e considerando as competições, do atleta Carlos Silva nas Universíadas de Pequim, podemos observar uma equilibrada perda de tempo nas duas fracções 4ª/7ª e 7ª/10ª, dentro dos parâmetros previstos. No entanto, e, porque as duas últimas corridas, foram realizadas ao seu melhor nível (dentro da sua corrida padrão) é sobre estas corridas que deverá incidir uma especial atenção.

            A corrida onde o atleta conseguiu a sua melhor prestação nesta competição, é simultaneamente a de maior equilíbrio, com perdas de 0.90 segundos entre a 1ª/4ª e a 4ª/7ª barreira e de 0.86 segundos entre a 4ª/7ª e a 7ª/10ª barreira. O ligeiro aumento de tempo verificado no registo da 4ª parcela, resulta da sua menor habilidade técnica quando o atleta utiliza a perna contrária no ataque da 5ª barreira.
          Exemplo de uma ficha de observação

OBSERVADOR

ATLETA  ____________________________________________________________
LOCAL  ________________________________  DATA  _________HORA _______         
    Altitude        ÿ                   Pista de saída         ÿ                    Classificação         ÿ

COMPETIÇÃO   ______________________________________________________
     Divulgação     ÿ         Apuramento      ÿ           Meia final      ÿ             Final       ÿ
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   

CONDIÇÕES CLIMATÉRICAS
 Estado do tempo                   Chuva         ÿ           Frio        ÿ          
 Vento na primeira recta         A favor       ÿ           Nulo      ÿ           Contra        ÿ                                                                                                       

PISO SINTÉTICO                Duro        ÿ                Mole    ÿ


REGISTO DE TEMPOS E PASSOS (barreira a barreira)

Partida
1ª p
2ª p
3ª p
4ª p
5ª p
6ª p
7ª p
8ª p
9ª p
Meta
Total
Tempos












Passos













ANOTAÇÕES     ________________________________________________________
                             ________________________________________________________
                             ________________________________________________________